Entrevista com o Deputado Federal Bassuma, por Cíntia Kelly


Por Cíntia Kelly

O deputado federal Luiz Carlos Bassuma, 53 anos, vira e mexe está se envolvendo em questões polêmicas. Defensor da vida, e contra o direito de legalizar o aborto, Bassuma foi suspenso das atividades parlamentares por divergir do seu então partido, o PT. Inconformado com a punição, ele se desfilou depois de 15 nas hostes petistas.

Hoje no PV, é candidatíssimo ao governo do Estado. Diz que, nos três primeiros meses deste ano, vai fazer reuniões nas 12 maiores cidades, onde estão concentrados 40% da população baiana. Espírita há 30 anos, Bassuma é o que se pode chamar de campo magnético da polêmica. Já presidiu sessão especial na Câmara Federal “incorporado”. Quem acompanhou a cena pela TV Câmara viu as feições do deputado modificadas e ouviu a voz alterada.

Ainda nas questões ligadas ao mundo espiritual, o ‘verde’ entregou recentemente ao clã dos Magalhães uma carta do ex-deputado federal Luiz Eduardo Magalhães, morto em 1998, psicografada por uma médium baiana. Diz que a comunicação entre a terra e o além foi bem assimilada pelo grupo de políticos e empresários.

Nesta entrevista ao Política Hoje, o pré-candidato ao governo baiano faz duras críticas ao PT e ao governador Jaques Wagner. “Qualquer um do PT teria vencido a eleição”, declarou Bassuma, sobre a sucessão estadual de 2006. O PT, óbvio, não ficou distante da língua afiada do seu ex-companheiro. “A coisa mais central da transformação do PT foi que ele ficou igual aos outros partidos em termos de práticas. Não há muita diferença entre PT, DEM e PMDB”.

Política Hoje – O senhor disse que não ia disputar a reeleição. Foi desencanto com o PT?

Bassuma – Esse processo de desencanto vem desde o mensalão. Na época, eu fiz plenária do mandato, tentei sair do partido, mas a maioria votou pela minha permanência. Desde lá, meu desencanto com o PT foi crescendo. Ele foi se tornando o partido da ordem, perdendo o compromisso com a sociedade de transformá-la. Ele não podia ter aberto mão de alguns princípios. A coisa mais central da transformação do PT foi que ele ficou igual aos outros partidos em termos de práticas. Não há muita diferença entre PT, DEM e PMDB.

PHoje – Não tem muita diferença ou não tem nenhuma diferença?

Bassuma – Eles (os partidos) se equivalem. O principal do jogo para eles é vencer as eleições e para isso a questão dos princípios não está presente. No começou não era assim. O PT começou a perder isso quando chegou ao poder central. Uma das coisas mais emblemáticas foi o que ocorreu como o senador Aloísio Mercadante, que disse que a sua saída da liderança era irrevogável, por conta do escândalo com José Sarney e no dia seguinte leu uma cartinha ridícula do Lula pedindo para ele ficar. Para uma pessoa que recebeu 10 milhões de votos é lastimável. Mas faz parte da lógica eleitoral. O PMDB é o segundo maior partido da base. O que aconteceu com Aloísio é o mais emblemático, chateado com Sarney, disse que era irrevogável a sua saída, recebeu 10 milhões de votos, no dia seguinte leu uma cartinha de Lula.

PHoje – Neste caso, a lógica eleitoral quer dizer ter que rezar na cartilha porque pode deixar de ter o apoio do partido. É isso?

Bassuma – O PV quando ficar grande pode correr esse mesmo risco, porque o partido é feito de homens e mulheres. Para vencer a eleição vale passar por cima de princípios e o partido também é feito de princípios. As pessoas vão alterando os princípios para pior, ou melhor. Um princípio que fez o PT crescer foi aquele que perseguia a chamada ética na política. Isso pegou na sociedade. Diferenciava o PT dos demais partidos. Agora para manter Sarney na presidência [do Senado] com provas inequívocas de todas as coisas erradas, prevaleceu a lógica eleitoral para manter o PMDB na aliança, e o Aloísio é um exemplo disso. Para vencer as eleições tem que abrir mão de princípios.

“Nós [do PV] vamos fazer 15 encontros regionais temáticos para ver a demanda de cada região. Em Salvador, por exemplo, sabemos que os grandes problemas são a violência e limpeza urbana. Tenho mil ideias”.

PHoje – O PT na Bahia, pelo o que o senhor está falando, segue esse mesmo caminho. Recentemente, no processo de eleição para a presidência da legenda, alguns grupos ensaiaram bater-chapa com Jonas Paulo, mas foram chamados pelo governador Jaques Wagner que pediu para que eles recuassem da ideia. Wagner foi prontamente atendido. Falava-se que um bate-chapa podia enfraquecer o partido, que a disputa não seria saudável. É um processo de eleição direta meio às avessas.

Bassuma – O PT inovou lá atrás para fazer eleição direta na sua direção. Foi novidade no passado.

PHoje – Mas a inovação ficou no passado, não?

Bassuma – Calma. Eu vou chegar lá. Quando começou foi uma coisa bonita. Foi o único partido que fez isso. O que aconteceu aqui é que o PT também chegou ao poder máximo. A lógica do poder foi fazendo interferência no pensamento livre das bases. Outros interesses fazem com que a lógica eleitoral do PT esteja acima da democracia. O PED virou uma disputa de máquinas. [PED é o Processo de Eleição Direta, através do qual os membros do partido escolhem o candidato da legenda que disputará a eleição – para Presidência , por exemplo]. As estruturas estão com interesses de participar do governo, antes se discutia ideias. O PT não tem mais debate de ideias. O que se discute hoje é a presença de maior ou menor poder nas instâncias do governo.

PHoje – Na sua avaliação, o PT acertou ao deixar a prefeitura de Salvador?
Bassuma – Para mim, foi um erro político.

PHoje – Mas a saída do PT para disputar a prefeitura não era previsível? Quando foi que o PT ficou de fora de uma disputa?

Bassuma – Se ficasse de fora fugiria à lógica. O partido disputa eleição para a prefeitura de Salvador desde 1988 com Zezéu Ribeiro. Não seria a primeira vez que ficaria de fora num governo ruim, um dos piores que Salvador teve. Mas eu fui voto vencido, quando disse que devíamos sair da administração logo. Mas prevaleceu a lógica dos cargos. E a sociedade cobrou, cobrou a incoerência. Se ficou até o minuto final da administração, perdeu a coerência.

PHoje – O presidente Lula não tem um nome que possa substituí-lo com todos os elementos que o fizeram ser o que é hoje (carisma é um deles). Na Bahia, vê alguém que substitua Wagner. O PT está buscando novas lideranças?

Bassuma – Um nome para substituir o de Lula é o de Marina Silva. Ela tem carisma natural, sem marketing. Ela pode suplantar o do Lula. Por isso ele não escolheu Marina lá atrás, e escolheu Dilma para ser sua candidata.

PHoje – A escolha dele foi mais pragmática do que por ter medo de ‘sombra’, se é que Marina Silva representa de fato um medo.

Bassuma – Não foi por pragmatismo. A escolha se deu pelo fato de Marina ter luz própria. Dilma é mais tecnocrata. É uma gestora. Quem vai disputar eleição tem que ter outros ingredientes. O bom é quando tem as duas coisas equilibradas e Marina é boa gestora e tem brilho próprio.

PHoje – Ok. Mas a pergunta era sobre a Bahia e Wagner?

Bassuma – Na minha opinião, a história de Wagner é diferente da de Lula. Lula projetou o PT. A vitória de Wagner se deu pela história do PT na Bahia. Era o momento do PT na Bahia. Ganhou quando ninguém acreditava, nenhuma pesquisa captou.

PHoje – Então teria vencido qualquer pessoa do PT. É isso?

Bassuma – Naquele momento qualquer candidato do PT venceria a eleição. Não era resultado da construção de Wagner. Ao contrário de Lula, que o PT alavancou.

Bassuma“Uma das coisas mais emblemáticas [sobre a mudança do PT] foi o que ocorreu como o senador Aloísio Mercadante, que disse que a sua saída da liderança era irrevogável, por conta do escândalo com José Sarney e no dia seguinte leu uma cartinha ridícula do Lula pedindo para ele ficar”.

PHoje – Como avalia o governo Wagner?

Bassuma – Mediano. Tem acertos e desacertos. Não foge dos demais governos. Tem falhas sérias em setores vitais como saúde e educação. Nenhum governo consegue fazer coisas significativas em pouco tempo, mas tem que perseguir. A segurança também deixa a desejar. Administrativamente o governo é mediano. Ele é ruim na condução política.

PHoje – O senhor se refere a exatamente ao quê?

Bassuma – Não dá para esquecer a conversa de Wagner durante a campanha (2006). Ele dizia ‘não vou esquecer quem comeu poeira comigo’. Quando começou a construção do núcleo central do governo, a ocupação prevaleceu a lógica aritmética. Pessoas que carregaram a história do partido durante 20 anos foram substituídas por pessoas que vieram do carlismo, que tinha mais votos para oferecer. Foi uma escolha pelo velho carlismo em detrimento de lideranças históricas. Com isso se perdeu a aura de governo, com uma cara que o povo elegeu. Se transformou em geléia que é uma mistura de tudo.

PHoje – Caso o senhor não chegue ao segundo turno, quem vai apoiar?

Bassuma – Tenho convicção mesmo que chegaremos ao segundo turno. O candidato que nós vamos enfrentar é Wagner. Embora em política tudo possa acontecer. Mesmo com o partido pequeno. O PV é pequeno, mas não é nanico. Mudou no mundo, a pauta do mundo passou a dar prioridade à mudança de paradigma do desenvolvimento. Introduziu mudanças profundas na economia para que as nossas vidas não sejam insustentáveis.

PHoje – Certo. Mas caso o senhor perca a eleição, quem apoiará no segundo turno?

Bassuma – O histórico do PV sempre teve próximo ao PT. Mas hoje ele não é mais sublegenda. Temos projetos distintos. Começamos uma discussão com partidos pequenos como o PPS. O PV não é de esquerda, nem direita, e o Partido Verde. Hoje o PT e partido de esquerda? Não é. No aspecto ideológico, o DEM, PMDB e PT se equivalem, são semelhantes.

PHoje – O PV entregou ao governador Jaques Wagner uma carta se desligando da administração, mas até agora os ‘verdes’ que têm cargos no governo continuam na estrutura. O PV tomará alguma medida quanto a isso?

Bassuma – É importante que se diga que o PV cumpriu a sua parte. A continuidade do apoio a Wagner foi derrotado por 95% do partido. Todos os cargos estão à disposição do governador. O partido não tem o poder de exonerar, é obrigação do governador fazê-lo, ou das pessoas de pedirem demissão. Juliano Matos (secretário do meio Ambiente) tem obrigação política e ética de fazê-lo. Caso não faça, o PV tem seu estatuto e tem que instalar a comissão de ética porque eles estão descumprindo orientação partidária.

PHoje – Existe um prazo para que a comissão de ética seja instalada?

Bassuma – Acho que é imediato. A carta foi entregue no dia 14 de dezembro do ano passado e acho que o PV deve se reunir para ver isso, mas só presidente pode falar. Agora, na minha opinião, se não agir logo, o partido vai acabar se desmoralizando.

PHoje – Beth Wagner, diretora do IMA, chegou a declarar que o PV pode ter como candidato o ministro da Cultura Juca Ferreira. A sua candidatura é pra valer ou não?

Bassuma – Em tese tudo só será decidido em junho. Até lá, tudo pode acontecer. Só que para o Juca se posicionar ele terá que entregar o cargo de ministro. Ele defendeu a aliança com Lula, foi contra a entrada de Marina Silva no partido, mas ficou isolado. Na Bahia, para que ele tenha autoridade vai ter que deixar o governo Lula. Como continuar ministro de Lula e ser candidato ao governo pelo PV?

PHoje – Então, o que significa a declaração de Beth Wagner?

Bassuma – Faz parte do jogo político. Cada um pode falar o que quiser. Se Juca deixar o governo Lula, pode ser encardo com um nível de seriedade.

PHoje – O senhor já está pensando em seu programa de governo para apresentar durante a campanha?

Bassuma – Nós vamos fazer 15 encontros regionais temáticos para ver a demanda de cada região. Em Salvador, por exemplo, sabemos que os grandes problemas são a violência e limpeza urbana. Tenho mil ideias. Temos também que aprofundar nas duas áreas que são pilares: saúde e educação. Se elas vão bem, todo o resto também vai bem. E isso não está bom na Bahia. A energia já avançou muito, mas não podemos pensar na maluquice de Wagner em trazer eventualmente uma usina de energia nuclear. Entre janeiro, fevereiro e março vamos fazer reuniões nas 12 maiores cidades, onde vivem 40% da população baiana. Depois disso, vamos estender para outros municípios.

PHoje – O governador Jaques Wagner diz reiteradamente que a Bahia avançou. O senhor concorda?

Bassuma – A Bahia é um estado poderoso do ponto de vista de conceito. Está próximo dos estados da região Sudeste, Norte. Está bem localizado. Tem uma costa litorânea fenomenal. Tem vocação para o turismo, mas nenhum governo avançou nessa área. Nenhum governo descentralizou o turismo. A Bahia não é só praia. Tem a Chapada com seu turismo ecológico, inclusive com a inclusão social. Na Agricultura ainda estamos bem atrás dos outros estados. Para se ter uma ideia, a alface que nós comemos vem de fora. Nesse aspecto o Estado não avançou. Na saúde e educação está andando para trás. A saúde é um dos maiores ralos da corrupção. Por que o SUS nunca funcionou, é por falta de dinheiro? Não. É por causa do ralo da corrupção. Não houve avanço antes e agora está pior.

PHoje – O ex-governador Paulo Souto tem feito críticas ao governo, sobretudo na falta de transparência. São críticas pertinentes?

Bassuma – Ele não pode falar. Eu fui deputado estadual e sofri na época dele, que não dava a senha aos deputados para terem acesso às contas do governo. Já Wagner deu a senha. Deputado tem que fiscalizar, afinal é umas nas prerrogativas da função. Tem que ter transparência, não pode esperar que o cidadão faça isso. Porque, quando o governo tem vontade política, você tem que usar não apenas os mecanismos como a Internet, mas tem que ter a Controladoria Interna, que seja feita uma auditoria interna e ampla de alta qualidade técnica para evitar os desvios. Assim que a gente assumir o governo e um partido indicar ‘fulano de tal’ para ser um secretário, o que é normal, se a controaldoria detectar que houve desvio, imediatamente a pessoa será exonerada. O partido político vai ter que buscar uma pessoa mais qualificada para que aquilo ali não vire uma ilha e é isso que o governo Lula faz e Wagner também. Botou ilhas.

PHoje – O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima tem dito que é o novo. O senhor concorda?

Bassuma – O fato de você dizer que é o novo, isso não é bom. Quando você é novo não precisa dizer que é, porque já é entendido como tal. É a mesma coisa que dizer: ‘me respeite’. Ninguém pode exigir, porque respeito se conquista. É um tipo de afirmação que não tem fundamento para mim.

PHoje – Que eu me lembre, dois episódios deixaram claro a sua opção religiosa e o quanto ela é forte e está ligada ao seu mandato. Em certa feita, presidindo uma sessão especial na Câmara Federal, o senhor incorporou um espírito. Mais recentemente, o senhor entregou uma carta ao clã dos Magalhães, dizendo que era de autoria do deputado federal Luiz Eduardo Magalhães, morto em 1998.

Bassuma – É verdade. Entreguei a carta e foi boa a receptividade. Foi tranquilo. Na verdade, foi uma médium daqui da Bahia que me pediu para entregar a carta. Não sei o que tinha nela, nem perguntei. Apenas entreguei à família.

PHoje – Então, continuando a pergunta, quando isso aflora, pode virar piada ou observações jocosas do tipo: ‘se ganhar, Bassuma vai nomear apenas secretários fantasmas’. Isso não o preocupa?

Bassuma – Acho que existe muito preconceito na sociedade. Eu jamais deixarei de explicitar as minhas convicções. Aquilo que eu acredito, eu jamais vou deixar de explicitar por preocupações de como vai encarar. Rótulo não muda ninguém. Eu tenho amigos padres, freiras, pastores e amigos que são ateus materialistas. Nunca fiz proselitismo. Religião para mim é uma coisa secundária. Não é essencial. Para mim é uma ferramenta importante e eu não posso negá-la. Eu seria ingrato perante a Deus.

Phoje – O senhor é espírita há quanto tempo?

Bassuma – Há muito tempo. Uns 30 anos, desde que eu cheguei à Bahia. Mas tenho profundo respeito por todas as religiões. Embora eu não encare o espiritismo como religião.

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