Um dia para mais outras tolerâncias


Quando nossa sociedade nos apresenta um dia em prol da consciência de possibilidade de tolerância à religiosidade particular de cada indivíduo, naturalmente, temos que abordar a necessidade de outras construções. Nós precisamos iniciar a construção de outras tantas tolerâncias? Sim, nós temos. Entretanto, sabemos que será exigido um preço altíssimo à tentativa de contracultura a essas ideologias estabelecidas dentre povos antigos e atuais. A priori, temos o paradigma de supremacia da força, depois a supremacia da inteligência, depois a supremacia da beleza e do poder econômico.

A necessidade de tolerância religiosa no mundo internacional é bastante crítica. Temos estabelecida uma guerra mental contra os países de religiões muçulmanas, devido à pressão psicológica de ramificações fundamentalistas. No Brasil, temos uma grande guerra antes direcionada à Igreja Romana, hoje, visivelmente entre a irmandade dita evangélica. Onde um disse ou disseram infindáveis está estabelecido.

É óbvio que existe grande intolerância com as religiões de matizes africanas no Brasil. Oriundas dos tempos de repressão, onde a capoeira e o candomblé eram tratados como marginais. Na verdade, podemos nos atrever a dizer que estas manifestações contrárias à capoeira e ao candomblé eram tentativas de destruir a sociedade negra no Brasil. Destruindo sua autoestima, suas estruturas organizacionais. No tempo em que o INAMPS e o INPS não atendiam, ainda hoje, não existem vagas suficientes para tantos; as benzedeiras, sacerdotes e sacerdotisas de Ifá eram as mãos ricas em medicinas e soluções para o povo brasileiro. “Os criadores dessas religiões foram negros da nação nagô ou iorubá, especialmente os de tradição de Oyó, Lagos, Ketu, Ijexá e Egbá, e os das nações jeje, sobretudo os mahis e os daomeanos. Floresceram na Bahia, Pernambuco, Alagoas, Maranhão, Rio Grande do Sul e, secundariamente, no Rio de Janeiro”.

Em resumo, nós todos, precisamos ampliar nossa visão de tolerância e dos prejuízos das intolerâncias e crescimento da formação de grupos nazistas odiando negros, homossexuais e nordestinos. Erradamente, alguns promovem a ideia de que só é possível a desconstrução de um pensamento através da destruição de pessoas. Não nos conformemos com um dia de festa, mas façamos deste dia a plataforma para em todo o ano sejamos portadores de defesa do respeito à pessoa humana independente de sua etnia, ideologia ou opções. Exceto se estas opções sejam contrárias à vida, o que todos concordam é o maior bem divino e jurídico da humanidade.

REVISTA USP, São Paulo, n.46, p. 52-65, junho/agosto 2000

Caetano Barata – Poeta, ativista cultural em Simões Filho e Conselheiro do CEPA

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