Aprendendo com Vô Guinésia


Muito depois das férias de verão voltamos ao interior da nossa querida vô Guinésia. Amo muito o interior e fiquei entristecido com o tal progresso: no lugar de lama, asfalto; no lugar de candeeiro, lâmpadas inconvenientes por todos os lugares; tente olhar as estrelas, não podemos mais.

Enfim, encontramos vô Guinésia envolvida com canjicas, pamonhas, xerens e tudo que é possível fazer com o milho depois de toda trabalheira para tirar os grãos sem as ferramentas modernas – Vô Guinésia não usa liquidificador, usa pilão para triturar o milho, imaginem! Já estava esperando o fim da fazenda antiga. Mas, pilão fogo e lenha, panela de barro resistem. Vô Guinésia tirou seu avental e nos abraçou. Cansei dos abraços falsificados e apertos de mãos fajutos. Ai! Graças a Deus um olhar de quem me deseja o bem de verdade. Não me contive:

– Vó, me abraça de novo.

Vó Guinésia profetisa me abraça novamente e conclui:

– o mundo sempre foi assim – inveja, ódio, olho grande. Amor verdadeiro é difícil.

Vó Guinésia retorna para a cozinha enquanto eu e meus irmãos nos arrumamos para irmos ao estábulo, cavalos e éguas nos esperavam para irmos a um belo passeio. Começo de tarde/noite voltaríamos para ouvir as histórias de vó Guinésia.

Cavalgamos e retornamos. Vó Guinésia sorriu enquanto nos sentávamos ao seu redor para ouvi-la. Vô Guinésia apesar de seus oitenta e dois anos tem uma memória incrível e uma capacidade de nos envolver com suas histórias como se fosse uma senhora de menos idade.

– Aprenderam que nem sempre, nos momentos mais difíceis podemos contar com as pessoas que amamos e muito menos com as pessoas que deveriam nos ajudar?
Meu primo mais velho como num muxoxo, discordando, retrucou:

– Mas, vó! Não diga isso.

Vô Guinésia abriu um sorriso largo.

– Estou dizendo isso porque sei. Observe comigo. Às vezes, nós temos que ajudar alguém e nos desculpamos dizendo: ninguém pode ser ajudado se não tem nada para se ajudar; outras vezes dizemos, ele tem que querer ser ajudado. Lamentavelmente, muitos estão num buraco com a perna quebrada e os que pode ajudá-lo dizem: saia daí desse buraco que vamos ajudá-lo.

Outras vezes, pisam no joelho das pessoas e dizem: levante-se seja forte, seja alguém na vida. Progrida. Muitos amam assim, fazem caridade assim. Não se iludam – gente não é brincadeira. Agora vão tomar banho para tomarmos café com xerém.

Caetano Barata

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