Os Sete Pecados (ou prazeres) Capitais


Convidado pela Petrobrás Bahia a participar do Seminário Cultura e Ética com as Histórias do Corpo e da Alma, coube-me Os Sete Pecados (ou prazeres) Capitais. A
visão geral da temática pedida dialeticamente coloca pecado e prazer para reflexão. Evidentemente que, no fundo, haveremos de tratar de Paixão, Amor, Ódio, Consumo e Trabalho na Sociedade Contemporânea, o humano descartável, espaço, tempo e mundo virtual, subjetividade em tempos hipermodernos.

Os Sete Pecados Capitais derivam para outros pecados ou qualidades nos mesmos. Sempre os pecados capitais significaram uma visão cristã bíblica, mostrando moral e ética em relacionamento. Em verdade, desviar-se dos pecados capitais pode levar e levam a uma filosofia e a uma teologia da libertação e, ao contrário do que se poderia pensar, evitam a negatividade no ser humano. Alguém perguntou “Afinal, o homem é livre se é prisioneiro ou é prisioneiro se é livre?”

É assim todo ser humano em todas as partes, não separando o todo da parte e, nesse sentido, todos os povos, raças, línguas, países, civilizações ainda hoje, no Oriente e no Ocidente, têm as mesmas inclinações, embora de forma própria. A ideia é tida em qualquer religião e, sobretudo, do Cristianismo, é que os pecados devem ser combatidos, mas de maneira que a liberdade, o bom senso e o livre-arbítrio de cada um participem nesse jogo. Eles, os pecados capitais, olham a personalidade humana em si. Interessante: no antigo Pequeno Catecismo da Doutrina Cristã (do tempo de D. Augusto, Cardeal da Silva, de estilo velho como dizem os que costumam separar períodos sem ver o que fica de permanente nas coisas passadas, em forma dialogal,  em parte, e já em desuso, fala-se em vícios ou pecados capitais. P – Quantos são os pecados e vícios capitais? R. Os vícios ou pecados capitais são sete: 1 Soberba; 2 – Avareza; 3 – Luxúria; 4 – Ira; 5 – Gula; 6 – Inveja; 7 – Preguiça”. Era assim o Catecismo. Vejam: no fundo na forma, e, na essência, os pecados capitais são sociais, pessoais e comunitários.

Estão, por assim dizer, em maneira própria psicológica, sociológica ou hereditária, genética. Igual ao que Marx falava sobre o justo salário e, de outro lado, Smith e Ricardo propõem o lucro a ser limitado pelo poder estatal, embora empresarialmente não. Psicologicamente todos os seres humanos passam por essa estrada aparentemente curta, mas longa que são os sete pecados capitais. Por exemplo, soberba é um pecado intelectivo, espiritual. O indivíduo se considera mais do que os outros ou de outrem. Por consequência, a soberba é individual-social. O soberbo é orgulhoso, pretenso e pretensioso, inflado, cheio de si, acha-se superior aos demais, despreza os outros.

Portanto, prejudicial à vida humana de pessoa a pessoa, individual-comunitária. Tanto a moral como a sociologia podem explicá-lo. É ler os livros de Bauman. A soberba é problemática em análise psicológica, sociológica, mesmo psiquiátrica. Dessa forma, a visão teológico-filosófica é bastante científica, racional. Difícil e mesmo dificílimo é analisá-los e, em particular no caso, a soberba, pecado do espírito, de forma social e direta na economia. Ao meu ver, há duas espécies de avarento, o avarento pessoal que não tira de si coisa alguma para os outros. Ou aquele que, por ser avarento, tira dos outros para si. Não veem que milhões e milhões, devido às duas espécies de avareza de que tratei estão na miséria, analfabetos, esfomeados, dito modernamente nas periferias.

Tratemos, agora, da preguiça. Paulo apóstolo afirma: “Quem não trabalha, não deve comer (Tessalonicenses 3,2). Agora quem não trabalha, devendo trabalhar, vive comendo fartamente. No Catecismo Oficial da Igreja Católica, fala-se de: “Todo sistema segundo o qual as relações sociais seriam inteiramente determinadas pelos fatores econômicos, é contrário à natureza da pessoa humana e de seus atos” (2422-24-25 CIC – Catecismo da Igreja Católica). No parágrafo 2422-23-24, declara-se: “Uma teoria que faz do lucro a regra exclusiva e fim último da atividade econômica é moralmente inaceitável. O apetite desordenado pelo dinheiro não deixa de produzir seus efeitos perversos. Ele é uma das causas dos numerosos conflitos que perturbam a ordem social”. (CIC 574 cf. Gaudium et Spes 63,3).

Gula é, hoje, um problema mundial, gula gastronômica – pessoas pesando além do limite e, assim, gulosas, glutonias, gerando um problema social para as nações individualmente: que é o consumismo e à medida que o consumismo avança, torna-se desenfreado. Problema tipicamente internacional e grave em países onde o capital alarga-se, mas é geral. O Brasil que é parte faz igualmente a mesma posição. Porque não ver o oposto?

Os pobres de todos os continentes passam fome, contrário do consumismo de gula. Veja-se a miserabilidade na África, assista-se Médicos sem Fronteiras… Sobre a Ira, pode ser formal ou propositada, por meio de índole própria ou genética, temperamento que não se contém e falta de educabilidade na família, nos estudos, no trabalho, na vida pública e, tantas vezes, do curso primário à universidade. E na vida social, política e seus fatores, em todas as partes do mundo. A Ira leva às brigas em geral, pessoais e familiares, ou até sociais, em qualquer momento com qualquer tipo de pessoa e até sem ter motivo. O contrário é: “Irai-vos, mas não pequeis” (Efésios 4:26).

Entretanto, em Mateus, capítulo 5, versículo 22 e seguintes, vejamos: “Trouxeram-lhe então um endemoninhado cego e mudo e, de tal modo o curou, que o cego e mudo falava e via e toda a multidão se admirava e dizia ‘Não é este o Filho de Davi? Mas os fariseus ouvindo isto diziam: ‘Este não expulsa os demônios, senão por Belzebu, príncipe dos demônios’. Jesus, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: ‘Todo reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda cidade ou casa, dividida contra si mesma, não subsistirá. E, se satanás, expulsa satanás, está dividido contra si mesmo e como subsistirá, pois, o seu reino? Ou como pode alguém entrar na casa do homem valente e furtar seus bens, se primeiro não manietar o valente, saqueando então sua casa?”. Aí vemos as condições e contradições desses pecados capitais.

Inveja. Quando queremos ter algo igual só porque outro ou o nosso amigo ou próximo tem ou possui, o povo chama de “olho gordo”. A cobiça e a inveja se relacionam ou se inter-relacionam. Há inveja da mulher ou do homem, inveja das amizades, inveja do emprego, inveja dos bens materiais. “É por inveja do demônio que a morte entrou no mundo; prová-la-ão quantos sejam de seu lado” (Sabedoria: 2, 24). Diabo ou satã vem do hebraico e trata-se de fator espiritual, embora tendo consequência física muitas vezes. Samuel: 18, 6-16. Nesse capítulo 18, dos versículos 6-16, mostra-se a origem da inveja de Saul quando expressa: “Quando eles voltavam junto com Davi, depois deste ter matado o filisteu, as mulheres vinham de todas as cidades de Israel para cantar e dançar na presença do rei Saul, com adufes e alegria e ao som dos sistros. As mulheres dançavam e cantavam dizendo ‘Saul matou milhares, mas Davi miríades’. Então Saul se indignou e ficou muito irritado e disse: ‘A Davi deram miríades, mas a mim só milhares: que mais lhe falta, senão a realeza?’ Desse dia em diante, Saul sentiu inveja de Davi”.

A luxúria se apega aos prazeres sexuais, conforme Freud e seus psicanalistas, as partes sexuais são determinantes. O crente chama de luxúria, mas o não-crente chama prazer. Tantas vidas giram em torno de sexo e o exemplo mais clássico é que ninguém nasce sem pai e mãe, ou se homem e mulher, não fizerem sexo. Luxúria seria o adultério como traição. Seria, igualmente, cobiçar a mulher/homem do próximo e até a zoofilia (sexo com animais). Para não alongar, citarei os textos bíblicos que falam do assunto à maneira dos judeus no Antigo ou Primeiro Testamento e dos judeus cristãos ou cristãos propriamente ditos no Segundo Testamento. 2 Pedro, capítulo 2, versículo 13 (“Recebendo a paga da sua injustiça; pois que tais homens têm prazer em deleites à luz do dia; nódoas são eles e máculas, deleitando-se em suas dissimulações, quando se banqueteiam convosco”); Levítico, capítulo 18, versículos 20-22 (“Nem te deitarás com a mulher de teu próximo para cópula, para te contaminares com ela.

E da tua descendência não darás nenhum para fazer passar pelo fogo perante Moloque; e não profanarás o nome de teu Deus. Eu sou o Senhor. Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é”); Mateus, capítulo 5, versículo 27 (“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’”); I Coríntios de Paulo, capítulo 6, versículo 15 (“Vocês não sabem que os seus corpos são membros de Cristo?

Tomarei eu os membros de Cristo e os unirei a uma prostituta? De maneira nenhuma!”).Há livros do empresário, jornalista e membro da Academia de Letras da Bahia, Joaci Góes, denominados Anatomia do Ódio na Família, no Trabalho, na Sociedade. Livro completo como o outro sobre a Inveja, chamado A Inveja Nossa de Cada Dia, publicado  pela Topbooks, Faculdades Polifucs. Sobre os assuntos são completos.

Os grandes teólogos Karl Rahner, Hans Kung, Joseph Ratzinger e os teólogos da libertação que, no Brasil, o mais citado deles é Gutiérrez, seguido de Leonardo Boff, partilham que: “A liberdade, o livre-arbítrio, a vontade e o esclarecimento mental demonstram que o homem não deve ser prisioneiro de suas inclinações psicológicas negativas”. Teóricos em parte, realistas em parte: porque não ver que as heranças, a genética, os antepassados nos ligam em aspectos que levam ou conduzem ou predispõem aos pecados capitais todos? E então, a grande palavra da vida é lutar, lutar e através da ciência como a psicologia, a psicanálise, a psiquiatria, com elas continuarmos o combate contra si próprio nestes pecados capitais, não ser porém duro ou brutal, uma vez que há desdobramentos neles benéficos. A moral exige a ética no sentido de reflexão, exteriorização física dos esportes, do cuidado com o corpo, do prazer ou prazeres da alegria, do bem-estar, do ser agradável aos outros. De não teimar, oferecer para não ser invejoso. Desculpar pra não ter ira. Freud, em grande parte, tem visão pessoalmente igual, teoricamente diversa. Jung vincula-se à meditação, à interioridade do espírito ou de alma o que compensa o que ele pudesse ter de negativo, luxurioso várias vezes. Precisa-se forçosamente ser religioso? Não. Sigmund Freud era mais moralista do que Carl Jung, mas ambos, direi mesmo o primeiro, abriu estradas de que não se queria passar por elas. Há no homem e na mulher o sentido do que deve ser correto e, assim, lutar com e contra o que nos arrasta. A ira, a inveja e os demais chamados pecados capitais são assim. Buda oferece Oito Princípios do Ser Correto e a palavra correto leva à correição para evitarmos o incorreto. Correção é ato ou efeito de corrigir, também exatidão, precisão. Imagine-se –ainda – dignidade, honestidade, correção de caráter. Há até “correção monetária” ou “operação” destinada a atualizar o poder aquisitivo da moeda (Ver Houaiss).

Desde o IV Século, Gregório Magno e João Cassiano – ambos elevados e glorificados – começam até hoje tratando dos sete pecados capitais. Falou-se dos pecados capitais e que levariam a prazeres… Só tendo a capacidade de Vieira para decifrar esse aparente contraste ou dialetização complexa. Só pelo oposto – na luta pessoal contra si próprio, talvez decifremos a charada ou essa interrogação admirativa – exclamativa. Tentemos. A soberbia às vezes é admirada, mas a bondade, por exemplo, de Irmã Dulce, é prazerosa, agradável, faz iguais os desiguais e não ídolos de barro em elites muitas vezes inconscientes. O soberbo é tagarela, o prazer é dialogar, estimar para ser
estimado. Napoleão foi maior em Santa Helena do que nas grandes batalhas porque limitou ou foi limitado e, assim, compreendeu que as tiranias não servem. As ditaduras
esmagam. A democracia liberta, igualiza ou, como dizia o grande inglês Winston Churchill: “Não há pior regime do que o democrático, mas não há melhor”. Limitar-se quando se tem poder, riqueza, inteligência é apreciável quando nos conscientiza de que soberba leva à revolta dos homens, degenera a grandeza do coração que se oferta a todos. Paulo, em Romanos 3, 27: “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei?

Das obras? Não; mas pela lei da fé” e é completo nesse sentido. Para que avareza? Odinheiro tem seu valor, mas não deve ser para comprar pessoas ou instituições.  Ainda Paulo I Timóteo, capítulo 6, versículo 20: “Porque a raiz de todos os males é a cobiça do dinheiro… por se terem deixado levar por ela, muitos se extraviaram da fé e se atormentaram a si mesmos com muitos sofrimentos”…  O prazer, o que vale? Dar, pois Francisco disse: “É dando que se recebe e é perdoando que se entra para a vida eterna”.

Sobre os prazeres sexuais, Paulo I Coríntios, Capítulo 6, versículo 10, afirma: “Alguns de vós ereis isto, mas fostes lavados pelo Espírito” Como resolvê-lo? Humildizar-se. Traz satisfação, a juventude e a velhice limpas no corpo e por dentro. Interioriza prazer e felicidade. Pra que ira? Quem podia, mandou perdoar setenta vezes sete e isto é senso de prazer. Prazer com felicidade. A ira de Hitler, Stálin, os ditadores também na América Latina detrataram o ser humano com o racismo, com o ideologismo e não devemos analisá-los porque o muro de Berlim caiu e os muros caíram e deverão cair.

Mais vale a fraternidade dos felizes de coração. Jesus se irou. É ver Mateus 21,12 “E entrou Jesus no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas”. O
apóstolo Paulo afirma: “Irai-vos, mas não pequeis” (Efésios 4:26). De passagem, Igor Gieleow, na Tribuna da Bahia de 21/11, fala em “O mal intrínseco” e afirma: “Leitores de Santo Agostinho, como se supõe… sabem que isso não é ‘sensação’ como escreveram e sim uma realidade inerente à condição humana. Mais influente teólogo do Cristianismo, um convertido do dualismo radical da religião maniqueísta, Agostinho estabeleceu em sua ortodoxia o conceito de que o mal é intrínseco ao livre arbítrio. Os homens, pois, não eram apenas vítimas dele”.

Finalizo porque não sendo um Vieira sinto que muito poderia ser dito sobre um tema tão rico, tão dialético, tão importante. Como estamos numa casa da Petrobrás, devo explicar a todos que o CEPA – Círculo de Estudo Pensamento e Ação, que fundamos tem 63 anos, participou teórica e praticamente, com o Professor Eloyvaldo Chagas de Oliveira, na campanha O Petróleo é Nosso e pusemos cartazes em várias partes de Salvador contra os americanos levarem as areias monazíticas do sul da Bahia. No CEPA do Rosário, o Dr. Geonísio Barroso, então Presidente da Petrobrás, falou diante de um auditório, no qual estavam nomes com Glauber Rocha, João Carlos Teixeira Gomes, e outros. De igual forma, recebeu-nos em sua casa de Amaralina, o Dr. Rômulo Almeida.

E, assim, esperamos que a Petrobrás atinja os seus grandes limites, pois o Brasil terá horizontes amplos, fortes e grandiosos na sociedade das nações. Um jovem Cepista do tempo de Walney, formado em Doutor de Filosofia na Alemanha, assim como outros que ele bem conhece , é hoje o Diretor / Presidente da Petrobahia que participa dessa luta pelo bem do Brasil.

Germano Machado, ex-professor da UFBA e da UCSAL,  das Academias Mater Salvatoris, da Academia Baiana de Educação, Fundador do CEPA.

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