Uma nova Consciência Negra


consciencia-negra-3854daQuando o MTE – O Ministério do Trabalho e Emprego afirma existir trabalho análogo ao escravo no Rock in Rio, lembro-me das palavras de Michel Foucault ao questionar: “Como se pode fazer um biopoder funcionar e ao mesmo tempo exercer os direitos da guerra, os direitos do assassínio e da função da morte, senão passando pelo racismo?” (FOUCAULT, 2005, p. 315). Entende-se em Foucault ser as práticas de racismo novas técnicas de delimitação de poder. Esta notícia reforça uma anedota brasileira, a lei foi assinada a lápis.

É comum as pessoas perguntarem: “O que você faz para combater, para emancipar (o próximo, o oprimido, por certo)?” Muitos afirmam ser libertária a educação, a leitura, a abertura de perspectivas de novos horizontes e visões da vida e da condição de vida em sociedade. Isto é, um exercício da nossa prática. Foucault provoca-nos a pensar, dizendo: “A especificidade do racismo moderno, o que faz sua especificidade, não está ligado a mentalidades, a ideologias, a mentiras do poder. Está ligado à técnica do poder, à tecnologia do poder. Está ligado a isto que nos coloca, longe da guerra das raças e dessa inteligibilidade da história, num mecanismo que permite ao biopoder exercer-se. Portanto, o racismo é ligado ao funcionamento de um Estado que é obrigado a utilizar a raça, a eliminação das raças e a purificação da raça para exercer seu poder soberano. A justaposição, ou melhor, o funcionamento, através do biopoder do velho poder soberano do direito de morte implica o funcionamento, a introdução e a ativação do racismo. E é aí, creio eu, que efetivamente ele se enraíza”. (FOUCAULT, 2005, p. 309).

Enquanto para Foucault está enraizado, alguns consideram irrelevante e inócua esta discussão. Obviamente, não se estabelece valoração a discussão com aqueles já cooptados pelo mecanismo de biopoder. Compreende-se também necessária a discussão do paradigma de Corpos Dóceis, no qual, já não pensamos, já não processamos, apenas digerimos a conceituação e à prática de exclusão racial. Ela é indiscutível, aceitável e sempre é tomada como humorizante.

A análise necessária e urgente é: assim como, descobriu-se os veios de bens materiais no solo africano dispersou-se grande ataque àquela nação com incentivo a grupos rivais aos dominantes. Hoje, numa releitura cruel, estabelece-se as primícias de uma caçada aos ricos financiadores dos grupos de fundamentação extremista. Evidenciando, uma nova cruzada, a possibilidade de um novo holocausto: “tem-se, pois, na sociedade nazista, esta coisa, apesar de tudo, extraordinária: é uma sociedade que generalizou absolutamente o biopoder, mas que generalizou, ao mesmo tempo, o direito soberano de matar”(FOUCAULT, 2005, p. 311).

Matam-se com palavras letais, matam-se sonhos e destroem oportunidades. Um exemplo contundente, o jogador da seleção de futebol da Bélgica foi confundido com um terrorista. Se o fato concreto fosse no Brasil, seria mais uma vítima no sistema Lynch (não teria tempo para rir da situação e posar para selfie), mais um pobre coitado dos tantos, com alvará de soltura, encarcerado nos calabouços fétidos das masmorras dos velhos porões; à espera de seu processo entrar na pauta.

Caetano Barata – Poeta, ativista cultural em Simões Filho/Ba, Conselheiro do CEPA. Pedagogo formado pela UNIME/Lauro de Freitas e estudante de Direito na UNIFASS/APOIO. Escreve emhttp://www.simoesfilhoemfoco.com.br ehttp://www.cepabrasilba.org.br

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1992.

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/11/jogador-da-selecao-belga-e-confundido-com-terrorista-por-turistas.html

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