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Eles, o ENADE e as lendas baianas

Nós baianos temos um privilégio raro na história da cultura brasileira. Quando alguém quer propor um remédio para calundu, aquele mau humor que alguns de outros estados chegam aqui; sem a alegria de viver genuína de todo baiano da gema. Imediatamente, a receita para homem é: vai em direção ao Pelourinho a partir do Santo Antonio, desce a ladeira até o Carmo e depois sobe a ladeira do terreiro de Jesus, descansa em frente à casa de Jorge, passa à direita e quando chegar ao terreiro toma um cravinho; cuidado! Você conhece as lendas tem o cravinho “com” e o cravinho, depois sua alegria chega, você vai ser outro; para as mulheres o caminho é o mesmo, entretanto, quando chegar ao terreiro procura um tabuleiro com acarajés e pede uma com bastante pimenta, imediatamente a mistura florescerá inumeráveis outras substâncias hormonais.

Lendas sobre baianos são incontáveis. Impensadamente algumas lendas sempre acabam propondo comparações; algumas tolas, outras ridículas, mas, o inconsciente coletivo baiano gosta. Afinal, baiano é o único império nacional que consegue sustentar sua vida com a tatuagem de preguiçoso.

É claro que comparações sempre sugerem metáforas, nem sempre desejosas. É como responder a pergunta sobre as condições de Bahia e Vitória em suas séries respectivas; ou como justificar a nota baixa no ENADE pelos alunos desta ou daquela instituição. Eu sei, ou penso para cair em lenda… Alguns universitários auto intitulam-se “barqueiros”… Outra lenda. “Barqueiro” é aquele indivíduo que mesmo sem convite ele já está dentro da viagem, mesmo sem saber se é batizado ou casamento, o mais importante é garantir presença e garantir o caneco; certamente, lá haverá muita carne e todo baiano sabe que não se leva namorada para churrasco.

Chances de Bahia e Vitória são sofríveis, qualquer projeção com esses jogadores sem divisão de base; uns não sabem fazer um cruzamento, outros dominam a bola com vinte minutos do segundo tempo e a canela joga a redonda pela lateral; preparem-se e guardem as esperanças… Bahia e Vitória não tem time nem para fazer 40 pontos. Vai ser mais um ano de sofrimento, rebaixa ou não rebaixa, conta número de vitória, re-conta os gols… ufa. Meu coração é BAVI morre de vergonha das ironias de sulistas.

Sobre as cordas e a corda do berimbau, entrou de gaiato e é óbvio nem todo baiano sabe tocar berimbau. A metáfora do professor não foi feliz. Mas, onde está a razão da atual música baiana? Era dessa influência que o professor referiu-se sub-repticiamente. Ele deveria ser direto e afirmar: a qualidade da cultura musical da juventude baiana é também espelho do que o baiano tem na cabeça. Enfim, onde está meu violão, não sei tocar berimbau, nem agogô.

Caetano Barata

Aprendendo com Vô Guinésia

Muito depois das férias de verão voltamos ao interior da nossa querida vô Guinésia. Amo muito o interior e fiquei entristecido com o tal progresso: no lugar de lama, asfalto; no lugar de candeeiro, lâmpadas inconvenientes por todos os lugares; tente olhar as estrelas, não podemos mais.

Enfim, encontramos vô Guinésia envolvida com canjicas, pamonhas, xerens e tudo que é possível fazer com o milho depois de toda trabalheira para tirar os grãos sem as ferramentas modernas – Vô Guinésia não usa liquidificador, usa pilão para triturar o milho, imaginem! Já estava esperando o fim da fazenda antiga. Mas, pilão fogo e lenha, panela de barro resistem. Vô Guinésia tirou seu avental e nos abraçou. Cansei dos abraços falsificados e apertos de mãos fajutos. Ai! Graças a Deus um olhar de quem me deseja o bem de verdade. Não me contive:

– Vó, me abraça de novo.

Vó Guinésia profetisa me abraça novamente e conclui:

– o mundo sempre foi assim – inveja, ódio, olho grande. Amor verdadeiro é difícil.

Vó Guinésia retorna para a cozinha enquanto eu e meus irmãos nos arrumamos para irmos ao estábulo, cavalos e éguas nos esperavam para irmos a um belo passeio. Começo de tarde/noite voltaríamos para ouvir as histórias de vó Guinésia.

Cavalgamos e retornamos. Vó Guinésia sorriu enquanto nos sentávamos ao seu redor para ouvi-la. Vô Guinésia apesar de seus oitenta e dois anos tem uma memória incrível e uma capacidade de nos envolver com suas histórias como se fosse uma senhora de menos idade.

– Aprenderam que nem sempre, nos momentos mais difíceis podemos contar com as pessoas que amamos e muito menos com as pessoas que deveriam nos ajudar?
Meu primo mais velho como num muxoxo, discordando, retrucou:

– Mas, vó! Não diga isso.

Vô Guinésia abriu um sorriso largo.

– Estou dizendo isso porque sei. Observe comigo. Às vezes, nós temos que ajudar alguém e nos desculpamos dizendo: ninguém pode ser ajudado se não tem nada para se ajudar; outras vezes dizemos, ele tem que querer ser ajudado. Lamentavelmente, muitos estão num buraco com a perna quebrada e os que pode ajudá-lo dizem: saia daí desse buraco que vamos ajudá-lo.

Outras vezes, pisam no joelho das pessoas e dizem: levante-se seja forte, seja alguém na vida. Progrida. Muitos amam assim, fazem caridade assim. Não se iludam – gente não é brincadeira. Agora vão tomar banho para tomarmos café com xerém.

Caetano Barata

História de Vó Guinésia – Um feriadão de carnaval

O feriadão do carnaval chegou e todos viajamos para visitar Vó Guinésia. Fomos todos recebidos com um sorriso largo e abraço afetuoso de Vó Guinésia. Os dias no interior são longos; propícios aos passeios e boa leitura debaixo de árvore frondosa. Eta vida boa, é pena que as indústrias já estão chegando para acabar com tudo.

Tardinha vem chegando e Vó Guinésia senta-se na sua cadeira de balanço envolvida com o crochê. Em dado momento como se fosse combinado, todos se calam e Vó Guinésia em tom ameno nos ensina:

– Vocês precisam estar atentos, infelizmente muitos se dizem nossos amigos mas, não o são. Estão apenas preocupados com seus próprios interesses. Sorriem, nos dão tapinhas nas costas. Mas, querem nos ver nos buracos da vida e sendo obrigados a lhes render bajulação.

Um dos netos de Vó Guinésia a interrompe e pergunta:

– Mas Vó Guinésia, como vamos indentificar uma coisa dessas?

Vó Guinésia sorri e responde:

-Quem disse que é possível identificar? Quantas vezes eu emprestei meu cheque e perdi o amigo? Quantas vezes eu servi e na hora que mais precisei viraram as costas para mim? Quantas vezes eu defendi os interesses dos amigos e eles avançavam o sinal fugindo de mim? Filhos, aprendam uma coisa: tem gente que só nos encaram como cana, espremem até o bagaço… depois, jogam fora.

Vó Guinésia retorna para o crochê a contar os pontos já enfileirados.

– Cuidado, todo cuidado é pouco. Muitos se dizem amigos, entram por ter sido convidados e saem sempre roubando mais um pedaço do mais precioso que temos em nós: a confiança no ser humano.

Caetano Barata